DECLARAÇÃO DE MONS. CARLO MARIA VIGANÒ SOBRE AS MISSAS EM SÃO PEDRO
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| Arcebispo Carlo Maria Viganò |
1 de abril de 2021
No passado dia 12 de março, com uma disposição sem
assinatura, sem número de protocolo e sem destinatário, a Primeira Secção da
Secretaria de Estado proibiu a celebração das Missas privadas na Basílica de
São Pedro, no Vaticano, a partir do Primeiro Domingo da Paixão. Nos dias
sucessivos, os Cardeais Raymond L. Burke, Gerhard L. Müller, Walter
Brandmüller, Robert Sarah e Joseph Zen expressaram a sua motivada perplexidade
com esta decisão que, pela forma inusual como foi elaborada, deixa intuir uma
ordem explícita de Jorge Mario Bergoglio.
A doutrina católica ensina-nos qual é o valor da
Santa Missa, qual é a glória dada à Santíssima Trindade, qual é o poder do
Santo Sacrifício pelos vivos e pelos defuntos. Sabemos também que o valor e a
eficácia da Santa Missa não dependem do número dos fiéis que a ela assistem,
nem da dignidade do celebrante, mas da reiteração, de fora incruenta, do
próprio Sacrifício da Cruz pelo sacerdote celebrante, que age in persona
Christi e em nome de toda a Santa Igreja: elicipiat Dominus sacrificium
de manibus tuis, ad laudem et gloriam nominis sui; ad utilitatem quoque nostram
totiusque Ecclesiæ suæ sanctæ.
A escandalosa decisão de um anônimo funcionário da
Secretaria de Estado, facilmente identificável no inominável Mons. Edgar Peña
Parra, representa, infelizmente, uma explicitação da prática das Dioceses de
todo o mundo: há sessenta anos que os desvios doutrinários, introduzidos pelo
Vaticano II, insinuam que a Missa sem povo não tem valor, ou que tem menos em
relação a uma concelebração ou a uma Missa com a presença de fiéis. As normas
litúrgicas pós-conciliares proíbem a ereção de vários altares na mesma igreja e
prescrevem que, durante a celebração de uma Missa no altar-mor, não se devem
celebrar outras Missas nos altares laterais. O próprio Missale Romanum montiniano
prevê até um rito específico para a Missa sine populo, no qual são
omitidas as saudações – por exemplo, o Dominus vobiscum ou o Orate,
fratres –, como se, além dos
presentes, não assistissem ao Sacrifício Eucarístico também a Corte Celeste e
as almas purgantes. Quando um sacerdote se apresenta em qualquer sacristia do
orbe pedindo para poder celebrar a Missa – não digo no rito tridentino, mas também
no reformado –, ouve-se invariavelmente que se pode unir à concelebração já
prevista e, em qualquer caso, é olhado com suspeita se pede para poder celebrar
sem ter algum fiel a assistir. É inútil objetar que a Missa privada é um
direito de cada sacerdote: a mens conciliar sabe ir muito além da letra
da lei para aplicar, com tetragonal coerência, o espírito do Vaticano II,
manifestando a sua verdadeira natureza.
Por outro lado, a Missa reformada foi modificada
para atenuar, silenciar ou negar explicitamente aqueles dogmas católicos que
constituem um obstáculo ao diálogo ecumênico: falar dos quatro fins da Missa é
considerado escandaloso, porque esta doutrina perturba aqueles que negam o
valor latrêutico, propiciatório, de ação de graças e impetratório do Santo
Sacrifício, definidos pelo Concílio de Trento.
Para os Modernistas, não há nada mais detestável do
que a celebração contemporânea de várias Missas, assim como é intolerável a celebração
coram Sanctissimo (ou seja, em frente ao tabernáculo colocado por cima
do altar). Para eles, a Santa Missa é uma ceia, uma festa de convívio, e não um
sacrifício: por isso, o altar é substituído por uma mesa e o tabernáculo já não
está presente sobre o altar, transferido para «um local mais adequado para a
oração e o recolhimento»; por isso, o celebrante está voltado para o povo e
não para Deus.
A disposição da Secretaria de Estado, além do
desrespeito em relação aos Cônegos da Basílica e da hipócrita escamoteação
da ausência de assinatura e protocolo, representa apenas a última confirmação
de um dado de fato que, obviamente, não quer ser admitido, nem contestado, por
aqueles que, ainda que com boas intenções, persistem em considerar atos
individuais sem querer enquadrá-los no contexto mais vasto do chamado pós-concílio,
à luz do qual até as mudanças mais insignificantes adquirem uma coerência
inquietante e demonstram o valor subversivo do Vaticano II. O que, é verdade,
reitera, por palavras, o valor da Missa privada – como recorda Sua Eminência
Burke na sua última intervenção –, mas, de fato, tornou-a apanágio de qualquer
“nostálgico” condenado à extinção ou de grupos de fiéis excêntricos. A
suficiência com que os liturgistas pontificam sobre estas questões é indicativa
de uma intolerância por tudo o que de Católico sobrevive no atormentado corpo
eclesial. Sempre em coerência com esta abordagem, Bergoglio pode impunemente
negar a Maria Santíssima o título de Medianeira e Corredentora, com o único
propósito de agradar aos Luteranos, segundo os quais os “papistas” idolatram
uma mulher e negam que Jesus Cristo seja o único Mediador.
É claro que, para os neomodernistas, se podem
proibir as Missas privadas e também se tentará revogar o Motu Proprio Summorum
Pontificum porque – como admitiu, recentemente, “Max Beans”, um dos mais
zelosos cortesãos de Santa Marta – a liturgia tridentina pressupõe uma doutrina
que é intrinsecamente oposta à teologia conciliar. Mas se chegamos ao escândalo
da proibição das Missas privadas em São Pedro, também o devemos ao modus
operandi dos Inovadores, que prosseguem, gradualmente, a aplicar, no campo
litúrgico, doutrinal e moral, os princípios da “janela de Overton”.
Reconheçamo-lo: estas piscadelas indecorosas a hereges e cismáticos respondem a
uma estratégia, dirigida às seitas não católicas, que encontra a sua conclusão
na mais ampla estratégia voltada para religiões não cristãs e às ideologias neopagãs
hoje prevalecentes. Só assim se compreende esta vontade deliberada de secundar
os inimigos de Cristo, para agradar ao mundo e ao seu príncipe.
Nesta óptica devem ser lidas as projeções de
animais na fachada da Basílica Vaticana; a entrada do ídolo da pachamama
levado às costas por Bispos e clérigos; a oferta dedicada à Mãe Terra colocada
no altar da Confissão durante uma Missa presidida por Bergoglio; a deserção do
altar papal da parte daquele que recusa o título de Vigário de Cristo; a
supressão das celebrações com o pretexto da pandemia e a sua substituição por
cerimônias que recordam o culto à personalidade dos regimes comunistas; a praça
completamente imersa nas trevas para se alinhar aos novos ritos do ecologismo
globalista.
Este moderno bezerro de ouro espera o regresso de
um Moisés que desça do Sinai e restaure na verdadeira Fé os Católicos depois de
ter expulsado os novos idólatras, seguidores do Aarão de Santa Marta. E não se
ouse falar de misericórdia ou de amor: nada está mais distante da Caridade do
que a atitude de quem, representando a autoridade de Deus na terra, abusa dela
para confirmar no erro as almas que Cristo lhe confiou com a ordem para
apascentá-las. O pastor que deixa o redil aberto e encoraja as ovelhas a
saírem, mandando-as para as mandíbulas dos lobos vorazes, é um mercenário e um
aliado do Maligno, e terá que prestar contas ao Supremo Pastor.
Diante deste enésimo escândalo, podemos constatar,
com consternação, o silêncio pávido e cúmplice dos Prelados: onde estão os
outros Cardeais, onde está o Arcipreste emérito da Basílica, onde está o Cardeal
Re, que, como eu, celebrou, durante anos, diariamente, a sua Missa privada em
São Pedro? Porque é que, agora, se calam diante de tantos abusos?
Como ocorre também no âmbito civil por ocasião da
pandemia e da violação dos direitos naturais pela autoridade temporal, também
no âmbito eclesiástico a ditadura precisa de súditos sem espinha dorsal e sem
ideais para se impor. Noutros tempos, a Basílica Vaticana teria sido sitiada
por padres, as primeiras vítimas desta odiosa tirania que tem a importunidade de
se fazer passar por democrática e sinodal. Não queira Deus que o inferno na
terra, que se vai instaurando em nome do globalismo, não seja senão a
consequência da indolência e da timidez, na verdade, da traição de muitos, demasiados
clérigos e leigos.
A Igreja, Corpo Místico de Cristo, aproxima-se da
sua Paixão, para cumprir, nos próprios membros, os sofrimentos da sua Cabeça.
Que estes dias que nos separam da Ressurreição do nosso Redentor sejam um
estímulo à oração, à penitência e ao sacrifício, para que possamos unir-nos à
Bendita Paixão de Nosso Senhor em espírito de expiação e de reparação, segundo
a doutrina da Comunhão dos Santos, que nos permite, no vínculo da verdadeira
Caridade, fazer o bem aos nossos inimigos e invocar de Deus a conversão dos
pecadores: também daqueles que a Providência nos infligiu como Superiores
temporais e eclesiásticos.
† Carlo Maria Viganò, Arcebispo

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